Nada Menos Que Tudo: o polêmico livro de Rodrigo Janot

Foto: Lula Marques

A partir de 2014, o Ministério Público Federal (MPF) ganhou um protagonismo nunca antes visto. 

Com a Operação Lava Jato, o MPF colocou figuras importantes na prisão e abalou a política brasileira. 

Rodrigo Janot foi procurador-geral da República durante boa parte da operação. 

Dois anos depois de deixar o cargo, ele publica um livro de memórias: Nada Menos Que Tudo –  Bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque.

No livro, ele saiu atirando para todos os lados.

Quase literalmente. 

Em entrevista concedida para o Estadão, Janot disse que chegou a ir armado para o Supremo Tribunal Federal na intenção de matar o ministro Gilmar Mendes.

“Ia ser assassinato mesmo. Ia matar ele e depois me suicidar”

Com essa declaração, o livro de Janot começou a chamar muita atenção.

Tem subprocurador tentando impedir que o livro seja vendido.

O que não vai adiantar muita coisa, porque a obra já foi vazada (como quase tudo relacionado à Operação Lava Jato).

E especialistas consideram que um dos capítulos seria uma espécie de delação premiada contra a operação – e pode ser que os advogados de Lula usem as informações na defesa do petista.

Mas antes de aprofundar no livro, vamos fazer umas explicações.

(Atualização: aparentemente a história de que ele entrou armado no STF no intuito de matar Gilmar tem graves inconsistências – mas a gente vai falar disso mais pra frente)

Quem é Rodrigo Janot?

Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Rodrigo Janot foi procurador-geral da República durante dois mandatos, entre 2013 e 2017.

Ou seja, foi chefe do Ministério Público Federal durante o período mais intenso da Operação Lava Jato. 

Enquanto esteve no cargo, a operação abriu 137 investigações no Supremo Tribunal Federal, mirando 93 parlamentares e 5 ex-presidentes da República. 

Em 2016, Janot pediu a prisão do presidente do Senado Renan Calheiros, dos senadores Romero Jucá e José Sarney, e do deputado Eduardo Cunha, todos do PMDB.

Outro fato relevante foi a chamada “Lista do Janot”.

Em 2017, ele enviou ao STF 83 pedidos de para investigar investigar políticos citados nas delações de executivos da empreiteira Odebrecht.

Janot deixou o cargo em setembro de 2017, sendo substituído por Raquel Dodge. 

O que faz um procurador-geral da República?

Augusto Aras, atual procurador-geral da República. Foto: Marcos Brandão/Senado Federal

O PGR chefia o Ministério Público da União, e também é o procurador-geral eleitoral e presidente do Conselho Nacional do Ministério Público – que fiscaliza a atuação dos integrantes do órgão. 

Ele é nomeado pelo presidente da República e tem de passar por uma sabatina no Senado. 

Apesar disso, ele tem independência funcional, ou seja, ele não é subordinado ao presidente, nem ao chefe do Poder Judiciário ou do Poder Judiciário.

Isso porque um de seus poderes é denunciar autoridades como deputados, senadores, ministros, e próprio presidente.

Na escolha do procurador-geral, os membros do Ministério Público fazem uma eleição interna, com os três mais votados – a chamada lista tríplice.

O costume é que o presidente escolha um dos nomes dessa lista.

Tal costume foi quebrado por Jair Bolsonaro, que escolheu Augusto Aras para ocupar o cargo em 2019. 

Mas por que Janot queria matar o Gilmar Mendes?

Rodrigo Janot e Gilmar Mendes
Foto: Lula Marques

Gilmar Mendes é ministro do Supremo Tribunal Federal desde 2002, quando foi nomeado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Com tanto tempo na Suprema Corte, Gilmar se envolveu em inúmeros conflitos e polêmicas.

Ele conseguiu o feito de desagradar gregos e troianos, e já entraram com pedido de impeachment contra o ministro – mais de uma vez. 

A discórdia entre Gilmar e Janot vem de 2017. 

Em meio à Operação Lava Jato, Janot entrou com um pedido de suspeição de Gilmar.

O procurador-geral queria que o ministro do STF fosse afastado de casos envolvendo o empresário Eike Batista, alvo da operação. 

Isso porque a esposa de Gilmar é sócia do escritório de advocacia que defendeu Eike. 

Janot acredita que o ministro teria levantado suspeitas sobre a atuação de sua filha, que é advogada e foi representante da empreiteira OAS.

“Num dos momentos de dor aguda, de ira cega, botei uma pistola carregada na cintura e por muito pouco não descarreguei na cabeça de uma autoridade de língua ferina que, em meio àquela algaravia orquestrada pelos investigados, resolvera fazer graça com minha filha” – diz Janot em Nada Menos Que Tudo

No livro, ele não diz explicitamente que o alvo seria Gilmar, mas deixou claro que pensou em matar o ministro durante entrevistas recentes. 

Atualização: Será que foi isso mesmo?

Reportagem publicado pelo site Jota aponta que talvez essa história do Janot não tenha sido bem assim.

A matéria diz que, no dia em que Janot teria entrado armado no STF, ele na verdade estava em Belo Horizonte.

Ele viajou para a capital mineira no dia 10 de maio de 2017 e voltou para Brasília somente no dia 15.

Além disso, as atas do tribunal mostram que, nesse mesmo dia, quem representou a Procuradoria no STF foi Bonifácio de Andrada.

O que o livro traz

Nada Menos que Tudo foi escrito a partir dos depoimentos de Rodrigo Janot aos jornalistas Jailton de Carvalho e Guilherme Evelin. 

O livro começou a ser produzido no final de 2018 e traz o ponto de vista do ex-procurador sobre as investigações de importantes figuras políticas. 

Entre os nomes citados, estão Michel Temer, Eduardo Cunha, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Aécio Neves e Renan Calheiros, entre outros. 

Janot narra bastidores da vida política em Brasília e a preocupação de pessoas importantes com o andamento da Lava Jato. 

Ele também detalha as delações de Joesley Batista, que atingiram Aécio, Temer, e outros figurões da política nacional. 

Ofensiva contra a investigação de Eduardo Cunha

Foto: Lula Marques

Logo no primeiro capítulo, o ex-procurador-geral conta que foi convidado por Michel Temer, que ainda era vice-presidente, para ir ao Palácio do Jaburu. 

Lá, Henrique Alves, deputado do PMDB, pediu para Janot parar a investigação contra Eduardo Cunha, que havia acabado de se tornar presidente da Câmara.

O caso narrado aconteceu em 2015. Depois disso, Cunha seria o responsável por abrir o processo de impeachment contra a então presidente Dilma.

Em 2016, o deputado foi afastado da Câmara, teve seu mandato cassado e foi preso em uma decisão da Operação Lava Jato. 

No livro, Janot afirma que Cunha foi o responsável pela invasão de sua casa em 2015.

Em resposta, o ex-deputado afirmou que Janot é “um psicopata e homicida que não merece respeito”.

Convites para o STF e para a vice-presidência

Foto: Rosinei Coutinho/STF

Em uma das passagens do livro, Janot conta que foi sondado duas vezes para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal. 

Uma delas foi durante o governo de Dilma Rousseff, após a aposentadoria de Joaquim Barbosa, e a outra, já no gestão de Michel Temer. 

Ele também fala que, em 2017, Aécio Neves foi extremamente incisivo em seus convites.

O então senador acreditava que estava “virtualmente eleito” e convidou Janot para assumir o Ministério da Justiça.

Janot recusou, e, uma semana depois, Aécio voltou à carga, convidando-o para ser vice-presidente em sua chapa. 

O ex-PGR diz não saber se estes convites foram uma tentativa de cooptá-lo em meio ao furacão da Lava Jato, deixando a conclusão para o leitor.

Pressão de Curitiba

Rodrigo Janot e Deltan Dallagnol
Foto: José Cruz/Agência Brasil

No capítulo 15, intitulado “O objeto de desejo chamado Lula”, Janot relata uma reunião que teve com os procuradores da Lava Jato em 2016. 

Na ocasião, Deltan Dallagnol e outros membros da força-tarefa pediram para Janot passar a denúncia contra Lula na frente de outras.

Eles tinham pressa porque, sem essa denúncia, a tese da turma de Curitiba sobre lavagem de dinheiro ficaria “descoberta”.

Mesmo com as reclamações de Dallagnol, Janot não atendeu o pedido. A denúncia da PGR contra Lula viria em setembro de 2017.

Este capítulo pode ser utilizado pelos advogados do ex-presidente em uma ação na ONU, já que seria prova da “obsessão da Lava Jato por Lula”.

Reações após a entrevista 

Rodrigo Janot na CCJ
Foto: Lula Marques

Como não poderia deixar de ser, a entrevista em que Rodrigo Janot afirma que pretendia atirar no ministro Gilmar Mendes gerou inúmeras reações.

Um dia depois da entrevista, Alexandre Moraes, também ministro do STF, autorizou uma ação de busca e apreensão no apartamento de Janot. 

Foram apreendidos uma pistola, munição, um celular e um tablet.

Moraes também determinou a suspensão do porte de arma do ex-PGR, além de proibir que ele entre no STF ou fique a menos de 200 metros de qualquer ministro do tribunal. 

“Ajuda psiquiátrica”

Foto: Nelson Jr./ASCOM/TSE

Gilmar Mendes, um dos pivôs da polêmica, divulgou nota depois da entrevista dizendo que Janot deveria ir atrás de “ajuda psiquiátrica”.

O ministro também chamou o ex-procurador de facínora e aproveitou para dizer que as petições de Janot eram “mal-redigidas”. 

“Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua concorria com a indigência da fundamentação técnica. Agora ele revela que eu corria também risco de morrer”.

Cassação da aposentadoria e censura

O subprocurador-geral Moacir Guimarães Filho encaminhou dois ofícios ao Conselho Nacional do Ministério Público contra Rodrigo Janot.

Em um deles, Moacir pede que a aposentadoria do ex-PGR seja cassada.

No segundo ofício, ele pede que o livro seja apreendido e retirado das livrarias, ou que as páginas sobre a intenção de matar Gilmar Mendes sejam removidas.

Vale a pena?

Nada Menos Que Tudo gerou uma enorme repercussão, e muita gente já se debruçou sobre o livro. 

Inclusive para apontar problemas. 

Rodrigo Balthazar, da Folha de S. Paulo, afirmou que há muitas inconsistências em várias histórias da obra. 

Apesar disso, o livro traz muitos relatos dos bastidores de Brasília, coisas que (quase) ninguém fica sabendo.

Escrito com a ajuda de dois jornalistas, Nada Menos Que Tudo tem uma linguagem que foge do juridiquês que seria esperado de um ex-procurador.

E com essa tentativa de censurar o livro, talvez seja bom já correr atrás do seu, não é?

Nada Menos Que Tudo: Bastidores da operação que colocou o sistema político em xeque

Autores: Rodrigo Janot, Jailton de Carvalho e Guilherme Evelin

Páginas: 256

Preço: R$ 49,90 (capa comum) ou R$ 35,91 (eBook)

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